Decidir sob incerteza – Como construir cenários acadêmicos para 2026

O ano de 2026 não deve ser interpretado como um marco distante, mas como consequência direta das decisões que vêm sendo tomadas no presente. Em um ambiente caracterizado por maior densidade regulatória, aumento de custos operacionais, mudanças no comportamento do estudante e crescente exposição institucional, a incerteza deixou de ser um elemento periférico e passou a constituir o próprio contexto da gestão da educação superior.

Nesse cenário, tem sido observado que a principal fragilidade institucional não reside na ausência de informações, mas na dificuldade de transformá-las em decisões estratégicas coerentes. A construção de cenários passa, assim, a ser menos um exercício prospectivo abstrato e mais um instrumento concreto de governança acadêmica, capaz de orientar escolhas estruturais em um ambiente de complexidade crescente.

Para que esse exercício seja efetivo, três eixos estratégicos precisam ser considerados de forma integrada e explícita.

O primeiro eixo diz respeito aos formatos de oferta. Presencial, semipresencial e educação a distância deixaram de ser alternativas intercambiáveis e passaram a representar arquiteturas formativas distintas, cada uma com implicações regulatórias, pedagógicas e financeiras próprias. Projetar cenários para 2026 exige avaliar não apenas tendências de crescimento ou retração, mas a coerência de cada formato com o projeto acadêmico institucional, a capacidade operacional existente e o nível de risco regulatório associado. Decisões precipitadas nesse eixo tendem a gerar inconsistências difíceis de reverter no médio prazo.

O segundo eixo refere-se à distribuição da carga horária como expressão concreta do modelo formativo. A forma como a carga horária é organizada entre atividades presenciais, atividades síncronas mediadas e atividades a distância tornou-se o principal indicador da consistência pedagógica e regulatória dos cursos. Ao construir cenários, torna-se indispensável avaliar como diferentes arranjos de carga horária impactam custos, exigências de infraestrutura, organização do corpo docente, experiência do estudante e processos de avaliação externa. Não se trata apenas de cumprir percentuais, mas de garantir que a carga horária represente tempo pedagógico efetivo e evidenciável.

O terceiro eixo está relacionado à governança institucional e à capacidade decisória. Tem sido cada vez mais evidente que instituições com processos decisórios integrados, uso qualificado de dados e diálogo estruturado entre áreas acadêmicas e administrativas conseguem lidar melhor com ambientes incertos. A construção de cenários não pode ser delegada a uma única instância nem reduzida a análises pontuais. Ela exige visão sistêmica, revisão de premissas históricas e disposição para alinhar estratégia, regulação e identidade institucional.

A articulação desses três eixos permite distinguir sinais estruturais de ruídos conjunturais. Nem toda variação de matrícula, mudança normativa pontual ou movimento de concorrentes deve resultar em alteração imediata de estratégia. A maturidade institucional manifesta-se justamente na capacidade de interpretar o contexto com profundidade, evitando decisões reativas que comprometem a coerência do projeto educacional.

Ao projetarmos o horizonte de 2026, é razoável assumir que a regulação continuará mais exigente, a competição mais qualificada e o estudante mais atento à relação entre custo, qualidade e experiência formativa. Nesse ambiente, a vantagem competitiva não estará em prever o futuro com precisão, mas em estar preparado para diferentes futuros possíveis, com modelos acadêmicos flexíveis, porém consistentes.

Decidir sob incerteza, portanto, não significa decidir sem critérios. Significa decidir com clareza sobre quais eixos orientam a estratégia, quais riscos são aceitáveis e quais compromissos institucionais não podem ser relativizados. A construção de cenários passa a ser instrumento de responsabilidade acadêmica e institucional.

Se 2026 começa agora, como tudo indica, o desafio colocado às instituições não é apenas o de reagir ao que virá, mas o de escolher conscientemente os caminhos que desejam trilhar. É nesse exercício de leitura, interpretação e decisão que se constrói não apenas o futuro das instituições, mas a relevância da educação superior no contexto que se desenha.