Quando a inteligência artificial nos torna menos? E quando nos torna mais?

A presença crescente da inteligência artificial na educação tem sido acompanhada por uma pergunta recorrente: até onde devemos permitir que estudantes utilizem essas tecnologias em seus processos de aprendizagem? A pergunta é legítima, mas talvez já seja insuficiente. O problema central não está apenas em permitir ou proibir o uso da inteligência artificial. Está em compreender o que acontece com nossas capacidades cognitivas quando passamos a utilizá-la.


Nem todo uso da inteligência artificial produz o mesmo efeito sobre quem aprende. Dependendo de como ela é incorporada ao processo educativo, podemos estar diante de duas trajetórias bastante diferentes. Em uma delas, a tecnologia substitui processos cognitivos que deveriam ser exercitados pelo estudante. Na outra, esses mesmos processos são preservados, desafiados e ampliados pela interação com a tecnologia.


Essa distinção tende a se tornar cada vez mais importante para a educação superior.


Podemos utilizar a inteligência artificial para interpretar um texto que não lemos, construir um argumento que não elaboramos, comparar perspectivas que não analisamos, formular hipóteses que não concebemos ou resolver um problema que sequer tentamos compreender. O resultado pode ser tecnicamente adequado e produzido em poucos segundos. Entretanto, a qualidade do produto final não significa necessariamente que tenha ocorrido aprendizagem.


Esse é um dos paradoxos que começamos a enfrentar. Podemos produzir mais e, ao mesmo tempo, aprender menos.


Durante muito tempo, resultado e aprendizagem estiveram relativamente associados no ambiente educacional. Um bom texto, uma análise consistente ou a resolução adequada de um problema eram considerados evidências razoáveis de que determinados processos cognitivos haviam sido mobilizados. A inteligência artificial generativa rompe parcialmente essa relação. Agora, podemos obter produtos intelectualmente sofisticados sem que, necessariamente, tenha ocorrido um esforço cognitivo equivalente por parte de quem os apresenta.


É nesse ponto que podemos reconhecer aquilo que chamamos de subtração cognitiva.


A subtração cognitiva ocorre quando delegamos à tecnologia processos que seriam importantes justamente porque contribuem para nossa formação. Não se trata de defender que todas as tarefas devam continuar sendo realizadas sem apoio tecnológico. Ao longo da história, inúmeras tecnologias foram utilizadas para reduzir esforços humanos e ampliar nossa capacidade de realização. A questão educacional é outra: quais esforços podem ser eliminados sem prejuízo e quais esforços constituem, eles próprios, parte da aprendizagem?


Aprender envolve percursos que nem sempre são eficientes. Formular uma hipótese inadequada, revisar um argumento, perceber uma contradição, buscar outra explicação, comparar alternativas e reconstruir uma resposta fazem parte do desenvolvimento intelectual. Quando utilizamos a inteligência artificial apenas para chegar mais rapidamente ao resultado, podemos eliminar exatamente o percurso no qual determinadas capacidades seriam desenvolvidas.


A eficiência, nesse caso, pode produzir uma espécie de ilusão educacional. O estudante entrega mais, escreve melhor e responde mais rapidamente, mas isso não significa necessariamente que esteja desenvolvendo maior capacidade de interpretar, argumentar, decidir ou resolver problemas.


Entretanto, essa não é a única trajetória possível.


Podemos organizar a experiência de aprendizagem de maneira inversa. O estudante pode ser desafiado inicialmente a compreender um problema, formular sua própria interpretação, construir hipóteses e defender determinado argumento. Somente depois desse primeiro esforço, a inteligência artificial pode ser incorporada como instrumento de confronto intelectual.


Podemos solicitar que sejam identificadas fragilidades no argumento construído, que sejam apresentadas perspectivas divergentes, que hipóteses sejam testadas, que evidências contrárias sejam consideradas ou que novas relações sejam exploradas. O estudante deixa de ser apenas receptor da resposta produzida pela máquina e passa a atuar sobre ela: questiona, compara, seleciona, rejeita, reformula e decide.
Nesse segundo movimento, não ocorre substituição do pensamento. Ocorre ampliação.


Podemos chamar esse processo de soma cognitiva.


A diferença entre subtração e soma cognitiva não está, portanto, na presença ou ausência da inteligência artificial. A mesma tecnologia pode produzir efeitos educacionais completamente distintos. A diferença está no desenho da experiência de aprendizagem e na sequência em que os processos cognitivos são mobilizados.


Isso reposiciona também o papel do professor.


Quanto maior for a capacidade das tecnologias de produzir respostas, mais importante será nossa capacidade de desenhar situações nas quais pensar continue sendo necessário. A mediação docente deixa de estar concentrada apenas na transmissão de informações e passa a envolver escolhas mais sofisticadas sobre quais processos cognitivos devem ser preservados, quais podem ser apoiados pela tecnologia e quais podem ser ampliados por ela.


Esse debate também nos obriga a rever práticas de avaliação. Se uma atividade pode ser integralmente realizada por inteligência artificial sem exigir compreensão, julgamento ou posicionamento do estudante, talvez o problema não esteja somente no uso da ferramenta. Pode estar também na própria arquitetura da atividade.


Precisaremos, portanto, formular experiências avaliativas capazes de tornar visível o pensamento. Será necessário valorizar processos, justificativas, escolhas, revisões, argumentações, aplicações e decisões.

Mais do que verificar se uma resposta correta foi produzida, precisaremos compreender como o estudante chegou até ela, como avalia sua qualidade e o que consegue fazer com o conhecimento construído.


Essa mudança é particularmente relevante para a educação superior. Formar profissionais não significa apenas preparar pessoas capazes de produzir respostas. Significa desenvolver capacidade de julgamento diante de situações nas quais as respostas não estão dadas, os problemas são ambíguos e diferentes alternativas precisam ser consideradas.


É justamente nesse território que a inteligência humana continuará sendo profundamente necessária.


Por isso, talvez estejamos entrando em uma etapa na qual a discussão educacional sobre inteligência artificial precisará amadurecer. O debate entre permitir e proibir foi importante como primeira reação à chegada dessas tecnologias. Mas ele não será suficiente para orientar as instituições nos próximos anos.
Precisaremos discutir delegação cognitiva.


Quais processos podemos transferir para as máquinas porque sua automatização nos libera para atividades intelectualmente mais relevantes? Quais processos precisam continuar sendo exercitados porque constituem capacidades essenciais à formação? E quais processos podem alcançar novos patamares justamente porque passaram a ser realizados em interação com sistemas de inteligência artificial?


Essas perguntas precisam chegar aos projetos pedagógicos, às práticas docentes, às metodologias de aprendizagem e aos modelos de avaliação. A incorporação da inteligência artificial à educação não deveria ser tratada apenas como decisão tecnológica. Ela é, antes de tudo, uma decisão pedagógica.

A pergunta decisiva, portanto, não é apenas o que a inteligência artificial consegue fazer por nós.
Precisamos perguntar o que acontece conosco quando começamos a utilizá-la.


Se a inteligência artificial substituir aquilo que precisamos aprender a fazer, poderemos nos tornar mais eficientes e, paradoxalmente, cognitivamente menos preparados.


Mas, se for utilizada para ampliar aquilo que continuamos sendo desafiados a compreender, questionar, relacionar, criar e decidir, poderemos construir uma relação muito mais promissora entre tecnologia e aprendizagem.


A inteligência artificial pode nos tornar menos quando substitui aquilo que precisamos desenvolver.
E pode nos tornar mais quando amplia aquilo que continuamos sendo desafiados a pensar.

A pergunta decisiva, portanto, não é apenas o que a inteligência artificial consegue fazer por nós.


Precisamos perguntar o que acontece conosco quando começamos a utilizá-la.


Se a inteligência artificial substituir aquilo que precisamos aprender a fazer, poderemos nos tornar mais eficientes e, paradoxalmente, cognitivamente menos preparados.


Mas, se for utilizada para ampliar aquilo que continuamos sendo desafiados a compreender, questionar, relacionar, criar e decidir, poderemos construir uma relação muito mais promissora entre tecnologia e aprendizagem.


A inteligência artificial pode nos tornar menos quando substitui aquilo que precisamos desenvolver.


E pode nos tornar mais quando amplia aquilo que continuamos sendo desafiados a pensar.