Durante muitos anos, a ideia de empregabilidade foi tratada de forma simplificada dentro das instituições de ensino superior. Em diversos projetos pedagógicos, ela aparecia associada a listas de competências, treinamentos específicos ou disciplinas voltadas ao desenvolvimento de habilidades comportamentais. Criou-se, assim, uma narrativa em que bastaria ensinar determinadas técnicas ou atitudes para garantir a inserção profissional dos estudantes.
Com o tempo, tornou-se evidente que essa visão é limitada. O mercado de trabalho não opera como uma prova objetiva em que o estudante marca as respostas corretas e, automaticamente, conquista uma vaga. A inserção profissional envolve contextos, relações, experiências acumuladas e capacidade de adaptação. Mais do que saber fazer algo, é preciso demonstrar valor em situações reais.
É nesse ponto que a extensão universitária ganha um significado estratégico. Quando estruturada de forma consistente, ela transforma o processo formativo em uma trajetória de experiências concretas, nas quais o estudante deixa de ser apenas receptor de conteúdos e passa a atuar como sujeito que intervém na realidade.
Ao participar de projetos extensionistas, o estudante entra em contato com demandas sociais, organizações, territórios e públicos diversos. Ele passa a lidar com problemas que não têm respostas prontas, aprende a negociar soluções, a trabalhar em equipe, a administrar frustrações e a construir entregas possíveis dentro de limites reais. Esse conjunto de vivências produz um tipo de aprendizado que dificilmente se alcança apenas com aulas expositivas.
A extensão, nesse sentido, cria um ambiente em que a formação acadêmica se conecta com a prática social e profissional. O estudante passa a acumular evidências de atuação: projetos realizados, relatórios produzidos, ações implementadas, indicadores acompanhados. Esse repertório não é apenas simbólico; ele se converte em um portfólio concreto que pode ser apresentado em processos seletivos, entrevistas ou oportunidades de empreendedorismo.
Outro elemento relevante é a construção de redes. A extensão aproxima a universidade de empresas, organizações sociais, órgãos públicos e comunidades. Essa aproximação permite que o estudante conheça diferentes ambientes de trabalho, compreenda suas dinâmicas e estabeleça contatos que poderão ser importantes em sua trajetória profissional. Muitas oportunidades surgem justamente desses vínculos, e não apenas de currículos formais.
Há também um impacto profundo na construção da identidade profissional. Ao atuar em projetos com propósito e impacto, o estudante começa a perceber com mais clareza o sentido do seu curso e as possibilidades de atuação na área escolhida. Ele deixa de enxergar a formação apenas como um caminho para obter um diploma e passa a compreendê-la como um processo de construção de uma trajetória.
No Brasil, a exigência de carga horária de extensão nos cursos de graduação trouxe um novo cenário para as instituições. A presença obrigatória dessas atividades no currículo abriu espaço para uma pergunta decisiva: a extensão será tratada como uma exigência a ser cumprida ou como um eixo de transformação pedagógica?
Quando a resposta é apenas administrativa, surgem atividades desconectadas, fragmentadas e sem intencionalidade formativa. O estudante cumpre horas, mas não constrói experiências significativas. A instituição atende à norma, mas não gera impacto real na formação.
Por outro lado, quando a extensão é incorporada ao projeto pedagógico como elemento estruturante, os resultados tendem a ser mais consistentes. Os projetos passam a dialogar com as disciplinas, os docentes atuam como orientadores de experiências reais, os estudantes produzem entregas concretas e a instituição fortalece sua presença no território.
Nesse cenário, a empregabilidade deixa de ser um discurso genérico e passa a ser construída ao longo de toda a formação. O estudante chega ao final do curso com vivências acumuladas, resultados demonstráveis, redes estabelecidas e uma narrativa coerente sobre sua trajetória.
A extensão, portanto, não deve ser vista apenas como uma exigência regulatória ou uma atividade complementar. Ela pode funcionar como o eixo que conecta conhecimento acadêmico, experiência prática e impacto social. Quando essa integração ocorre de forma planejada, a formação ganha profundidade, a instituição amplia sua relevância e o estudante se torna, de fato, protagonista de sua própria inserção no mundo do trabalho.
