Entre Babel e Jerusalém: Educação, Inteligência Artificial e a Reconstrução do Humano

Há momentos em que documentos produzidos em contextos completamente distintos acabam revelando uma mesma preocupação histórica. Algo semelhante parece ocorrer com a recente Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, e com o Parecer do Conselho Nacional de Educação atualmente em consulta pública sobre a utilização da inteligência artificial na educação brasileira. Embora pertençam a universos diferentes, um à reflexão ética e humanista e outro ao campo das políticas públicas educacionais, ambos parecem partir de uma constatação comum: a inteligência artificial não está produzindo apenas uma transformação tecnológica. Ela está nos obrigando a revisitar perguntas fundamentais sobre a própria condição humana.

A narrativa de Babel talvez seja uma das metáforas mais atuais para compreendermos os desafios contemporâneos da educação. Tradicionalmente associada à multiplicação das línguas e à dispersão dos povos, Babel pode ser reinterpretada como a representação de uma humanidade fascinada por sua própria capacidade de construir, produzir e dominar tecnologias, mas que corre o risco de perder a compreensão compartilhada sobre os propósitos de sua própria existência.

Não é difícil perceber como essa imagem dialoga com o momento atual. Vivemos uma época marcada pela abundância de informação, pela hiperconectividade e pela crescente capacidade de processamento dos sistemas inteligentes. Produzimos mais dados do que em qualquer outro período da história humana. Entretanto, a ampliação das capacidades técnicas não tem sido acompanhada, necessariamente, pela ampliação da compreensão, da sabedoria ou da capacidade coletiva de construir significados comuns.

Nesse contexto, a inteligência artificial surge como um dos maiores símbolos da contemporaneidade. Pela primeira vez, convivemos com sistemas capazes de executar tarefas cognitivas que durante séculos foram consideradas exclusivas da inteligência humana. Redigir textos, interpretar informações, produzir imagens, apoiar diagnósticos, realizar análises complexas e até participar de processos criativos tornam-se atividades compartilhadas entre seres humanos e máquinas.

Paradoxalmente, quanto mais avançamos na construção de inteligências artificiais, mais somos obrigados a revisitar a pergunta fundamental sobre aquilo que nos torna humanos.

É exatamente nesse ponto que a metáfora de Jerusalém ganha relevância. Se Babel simboliza a dispersão produzida pela confiança excessiva na técnica, Jerusalém representa a reconstrução do encontro, da comunidade, do diálogo e da busca compartilhada por significado. Mais do que um lugar geográfico ou religioso, Jerusalém pode ser compreendida como um símbolo da capacidade humana de reconstruir vínculos, produzir sentido coletivo e orientar o conhecimento para finalidades que transcendam a mera eficiência.

A educação ocupa posição central nesse movimento. Se a inteligência artificial pode ampliar capacidades cognitivas, a formação humana continua sendo responsável pelo desenvolvimento do discernimento, da ética, da empatia, da responsabilidade e da capacidade de julgar. Algoritmos podem oferecer respostas. Mas somente seres humanos são capazes de refletir sobre quais perguntas realmente merecem ser feitas.

Talvez resida aí uma das maiores contribuições tanto da Encíclica Magnifica Humanitas quanto do Parecer do Conselho Nacional de Educação sobre inteligência artificial. Ambos parecem reconhecer que o desafio central não consiste em decidir se utilizaremos ou não a inteligência artificial. Essa discussão já foi superada pela própria realidade. A questão passa a ser outra: que tipo de humanidade desejamos formar em uma sociedade permeada por sistemas inteligentes?

Essa pergunta possui implicações profundas para escolas e universidades. Ela exige repensar currículos, metodologias, formas de avaliação e modelos de governança educacional. Exige compreender que o desenvolvimento de competências técnicas continuará sendo importante, mas não suficiente. Em um mundo no qual máquinas também produzem conhecimento, ganha ainda mais relevância a formação da consciência crítica, da criatividade, da capacidade de cooperação e da responsabilidade ética.

Por essa razão, o debate sobre inteligência artificial não pode ser reduzido a uma discussão tecnológica. Trata-se, antes de tudo, de uma discussão antropológica, cultural e educacional. O que está em jogo não é apenas a incorporação de novas ferramentas ao processo de ensino-aprendizagem. O que está em jogo é a própria compreensão do papel da educação na formação das futuras gerações.

Entre Babel e Jerusalém, entre a fascinação pela técnica e a reconstrução do sentido, a educação talvez esteja sendo chamada a exercer uma de suas missões mais importantes. Não apenas ensinar as pessoas a utilizar inteligências artificiais, mas ajudá-las a permanecer profundamente humanas em um mundo cada vez mais inteligente.